os Portões da Lua,
cujos archotes não eram mais brilhantes que velas.
Neve era menor que Pedra, uma única torre fortificada e uma
fortaleza e estábulo de madeira escondidos atrás de um muro
baixo de pedra solta. Mas apertava-se de encontro à Lança do
Gigante de modo a dominar toda a escada de pedra acima do
castelo intermédio inferior. Um avanço inimigo sobre o Ninho
da Águia teria de lutar a partir de Pedra, degrau a degrau,
enquanto pedras choviam de Neve. Seu comandante, um
jovem cavaleiro ansioso de face esburacada, ofereceu-lhes pão
e queijo e a possibilidade de se aquecerem na sua fogueira,
mas Mya declinou.
- Devemos continuar, senhora - disse. - Se lhe for conveniente
- e Catelyn anuiu.
De novo foram-lhes dadas outras mulas. A dela, um macho,
era branca. Mya sorriu ao vê-lo.
- O Branquinho é um bom macho, minha senhora. Pernas
firmes, até mesmo no gelo, mas precisa ter cuidado. Ele
escoiceará se não gostar da senhora.
O macho branco pareceu gostar de Catelyn, não houve coices,
graças aos deuses. Também não havia gelo, e por isso também
se sentia grata.
- Minha mãe diz que, há centenas de anos, era aqui que a neve
começava - disse-lhe Mya. - Cá em cima estava sempre
branco, e o gelo nunca derretia - encolheu os ombros. - Nem
sequer me lembro de alguma vez ter visto neve abaixo da
montanha, mas talvez tenha sido assim em épocas passadas.
Tão jovem, pensou Catelyn, tentando imaginar seja fora
assim. A moça vivera metade da vida no verão, e isso era
tudo o que conhecia. Quis dizer-lhe: O inverno está para
chegar, filha. As palavras subiram-lhe aos lábios, e quase as
disse. Talvez estivesse por fim transformando-se numa Stark.
Acima de Neve, o vento era uma coisa viva, uivando em
torno delas como um lobo na campina, e depois se
transformando em nada, como se as atraísse para a
complacência. Ali as estrelas rireciam mais brilhantes, tão
próximas que quase podia tocá-las, e o crescente da lua era
enorme ao céu negro e limpo. Enquanto subiam, Catelyn
descobriu que era melhor olhar para cima que rara baixo. Os
degraus estavam fendidos e quebrados, de séculos de gelo e
degelo e dos passos de —contáveis mulas, e a altitude lhe
trazia o coração à garganta, até mesmo na escuridão. Quando
negaram a uma depressão entre duas agulhas de rocha, Mya
desmontou.
- É melhor levar as mulas pelas cordas - ela avisou. - O vento
pode ser um pouco assustador aqui, minha senhora,
Catelyn desmontou rigidamente nas sombras e olhou para o
caminho que as esperava: seis metros de comprimento e quase
um de largura, mas com um precipício de cada lado. Ouvia o
vento gritar. Mya avançou com ligeireza, seguida por uma
mula tão calma como se estivessem percorrendo uma
muralha. Agora era a vez de Catelyn. Mas, assim que deu o
primeiro passo, o medo endureceu suas mandíbulas.
Conseguia sentir o vazio, os vastos abismos negros de ar que
se abriam ao redor. Parou, tremendo, com medo de se mover.
O vento gritava-lhe e a puxava pelo manto, tentando
empurrá-la para fora daquela crista. Catelyn arrastou o pé
para trás, no mais nmido dos passos, mas o macho estava
atrás dela, e não podia recuar. Vou morrer aqui, pensou.
Sentia os suores frios que lhe escorriam pelas costas abaixo.
- Senhora Stark - chamou Mya por sobre o abismo. A voz da
moça parecia vir de uma distancia de mil léguas. - Está bem?
Catelyn Tully Stark engoliu o que restava de seu orgulho.
- Eu... eu não sou capaz de fazer isto, criança - ela gritou.
- É sim - disse a bastarda. - Eu sei que é capaz. Veja como o
caminho é largo,
- Não quero olhar - o mundo parecia girar à sua volta,
montanha, céu e mulas rodopiando como o pião de uma
criança. Catelyn fechou os olhos para recuperar a firmeza da
respiração entrecortada.
- Vou buscá-la - disse Mya. - Fique imóvel, senhora.
Mover-se era talvez a última coisa que Catelyn faria naquele
momento. Ouviu o grito agudo do vento e o som arrastado do
couro roçando na rocha. E então Mya estava ali, tomando-a
gentilmente pelo braço.
- Mantenha os olhos fechados, se preferir. Largue a corda
agora. O Branquinho tomará conta de si próprio. Muito bem,
minha senhora. Eu a levo, é fácil, a senhora verá. Dê agora
um passo. Isso mesmo, mexa o pé, faça-o deslizar em frente.
Vê? Agora o outro. É fácil. Poderia atravessar correndo.
Outro, vamos. Sim - e assim, pé ante pé, passo a passo, a
bastarda levou Catelyn a atravessar, cega e tremendo,
enquanto o macho branco seguia plácidamente atrás delas.
O castelo intermédio chamado Céu não era mais que um muro
alto de pedra solta em forma de crescente, erguido contra a
vertente da montanha, mas nem mesmo as torres sem topo de
Valíria teriam parecido mais belas a Catelyn Stark. Ali
começava finalmente a neve; as pedras desgastadas de Céu
estavam cobertas de geada, e longos pingentes de gelo
pendiam das encostas mais acima.
A alvorada rompia no leste quando Mya Stone gritou um olá
aos guardas, e os portões se abriram para deixá-las entrar.
Dentro das muralhas havia apenas uma série de rampas e
uma grande confusão de